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    ARTIGO: As gargalhadas do poder – quando os intocáveis riem dos mortais

    A maior crise institucional vivida pelo Brasil desde a redemocratização parece ter descortinado, de forma cada vez mais explícita, as mazelas daqueles que se julgam intocáveis e que, ao longo dos anos, se submeteram aos escárnios de um poder sem limites, alimentado também pela força do dinheiro.

    Em um sistema dividido em três Poderes — Legislativo, Executivo e Judiciário —, assistimos ao poder econômico avançar silenciosamente sobre as instituições, seduzindo e, em muitos casos, submetendo aqueles que se deixaram embriagar pela luxúria, pelos privilégios e pelas benesses que o poder é capaz de oferecer.

    Primeiro, vimos o Parlamento se dobrar. Deputados e senadores das mais diversas correntes ideológicas, que deveriam representar os interesses da sociedade, muitas vezes parecem mais preocupados em preservar seus status, seus privilégios e seus espaços de poder. A política, que deveria estar a serviço do povo, passa a ser capturada por interesses daqueles que possuem recursos suficientes para impor suas vontades.

    Depois, o Executivo, que há anos alimenta um sistema sustentado pela exploração da massa trabalhadora e pela subserviência aos grupos que detêm o capital. Em nome da manutenção do poder, princípios são relativizados, alianças são construídas e interesses particulares acabam, não raramente, colocados acima dos interesses da própria sociedade.

    Por fim, chegamos ao Judiciário. Durante muito tempo considerado o fiel da balança e uma espécie de última barreira contra os excessos dos demais Poderes, ele também passou a ser alvo de questionamentos. Aos olhos de muitos brasileiros, algumas decisões e comportamentos alimentam a percepção de que existe uma casta acima das regras que deveriam valer para todos.

    É como se tivéssemos criado um Olimpo institucional, onde deuses intocáveis se apropriam de seus poderes e, do alto de seus privilégios, observam os simples mortais que, aqui embaixo, enfrentam insegurança, desigualdade, desemprego, falta de serviços públicos e uma crescente descrença nas instituições. E talvez seja justamente aí que esteja o maior escárnio.

    Enquanto a população paga impostos, enfrenta dificuldades para sobreviver e espera respostas para problemas que se acumulam diariamente, aqueles que deveriam dar o exemplo parecem, muitas vezes, distantes da realidade de quem está do outro lado.

    Diante do caos e da exposição de uma nudez moral que já não consegue ser escondida atrás dos discursos oficiais, ainda assim eles seguem como se nada tivesse acontecido. Mantêm a postura, preservam os privilégios e continuam caminhando pelos corredores do poder com a naturalidade de quem acredita não precisar prestar contas.

    E nós, os mortais, seguimos estáticos.
    Observando. Questionando. Desacreditando. A pergunta que permanece é simples, mas incômoda: até onde chegaremos antes que as instituições voltem a compreender que o poder não pertence a quem o exerce, mas à sociedade que o legitima?

    Beto Santana
    Beto Santana
    Consultor e gestor de projetos, ativista dos direitos humanos e ex-conselheiro tutelar de Olinda. Decidiu criar o Diário de Olinda com o objetivo de proporcionar informações sobre a cidade, focando nos fatos e oferecendo uma opinião progressista sobre os temas abordados.

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