
O Carnaval 2026, que movimenta milhões de foliões nas históricas ladeiras de Olinda (PE), carrega também um debate intenso sobre identidade, pluralidade cultural e ordenamento dos cortejos.
De um lado, as agremiações de frevo — ritmo símbolo da cidade e patrimônio cultural imaterial — reivindicam respeito às tradições e à configuração sonora do Sítio Histórico. Do outro, baterias de samba e blocos com grandes formações reivindicam espaço para suas apresentações, defendendo sua legitimidade cultural e legal na festa a exemplo de agremiações como o Patusco e o Preto Velho que tem décadas de existência.
Representantes das orquestras e troças de frevo têm manifestado incômodo com a presença e a forma de atuação das baterias de samba dentro do Sítio Histórico.
Segundo notas públicas e declarações de integrantes da Associação das Agremiações de Frevo de Olinda, o uso de carros e equipamentos de som de grande potência pelas baterias tem “descaracterizado o ambiente sonoro tradicional da folia” e “atropelado os pulmões acústicos dos músicos das orquestras”, dificultando o fluxo e a experiência dos cortejos frevísticos nas ruas estreitas da cidade.
A manifestação dos grupos de frevo reforça que não se trata de uma disputa cultural entre gêneros, mas de uma questão de adequação do uso de equipamentos e da dinâmica dos cortejos ao contexto histórico, evitando ainda riscos ao patrimônio material da cidade.
Líderes de baterias de samba, por sua vez, argumentam que a sua presença no Carnaval de Olinda está respaldada por legislação municipal e não pretende excluir o frevo. O presidente da Bateria Auê destacou que todos os grupos que participam se inscrevem em editais da Prefeitura e têm autorização para o itinerário e os aparelhos sonoros utilizados, apontando que o objetivo é tocar onde há público — e que, se necessário, poderia haver divisão de dias ou trajetos para diferentes ritmos.
Para esses grupos, samba também faz parte da cultura popular pernambucana e deve ter espaço legítimo no calendário oficial, contribuindo para a diversidade musical do carnaval.
Além das críticas entre os segmentos, a prefeitura publicou nesta quarta-feira (11) um Olinda um decreto, regulamentando a utilização de aparelhos e equipamentos sonoros no carnaval, visando sobretudo assegurar a convivência entre manifestações culturais, as orquestras e cortejos tradicionais.
Em meio ao debate, a Bateria de Samba Cabulosa anunciou que deixará de subir a Cidade Alta, optando por um trajeto alternativo na parte baixa da cidade para evitar “embates e transtornos” e reafirmar seu compromisso com o respeito à cultura local.
Nas redes sociais, o debate tem ganhado relevo, sendo temário para visões divergentes sobre a questão: enquanto parte condena a presença de som mecânico intenso nas ladeiras estreitas, outros apontam que a falta de organização mais ampla da prefeitura também contribui para problemas na mobilidade e na convivência entre grupos culturais.
No calendário oficial e nas ações de promoção da festa, a prefeitura tem reforçado o apoio a diversidade de manifestações culturais — incluindo frevo, maracatu, afoxé, blocos líricos e tradições centenárias como O Homem da Meia-Noite, buscando equilibrar tradição e pluralidade, de forma planejada.





